Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
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Textos

O dia em que o recreio perdeu um som

Toda escola tem uma trilha sonora.

Tem o barulho das cadeiras arrastando, o tênis correndo pelo corredor, a bola batendo na quadra, a conversa que atravessa a sala antes mesmo de o professor chegar.

Tem o sinal, que ninguém gosta de ouvir quando o recreio acaba.

E tem os risos.

Ah, os risos...

Na turma do 9º B, existia um riso que todo mundo reconhecia.

Era o riso da Bia.

Bia tinha 14 anos e uma risada impossível de confundir. Começava baixinha, crescia sem pedir licença e, quando ela menos esperava, tomava conta do ambiente.

Às vezes, ela ria tanto que precisava se apoiar na carteira.

Se alguém começasse a rir perto dela, pronto. Era quase impossível parar.

Bia também tinha seus dias difíceis, suas inseguranças, suas vontades de desaparecer. Como qualquer pessoa.

Mas gostava de rir.

Até que, numa terça-feira absolutamente comum, alguém resolveu transformar aquele riso em piada.

— Lá vem a sirene! — gritou Tito, depois de ouvir Bia gargalhar.

A turma caiu na risada.

Bia também riu.

Não porque tivesse achado engraçado.

Mas porque, às vezes, rir junto é mais fácil do que demonstrar que alguma coisa machucou.

No dia seguinte, alguém repetiu a brincadeira.

Na quinta-feira, já havia quem imitasse a risada dela pelos corredores.

Na sexta, Bia descobriu que um vídeo de poucos segundos, gravado sem que ela percebesse, havia se transformado em figurinha no grupo dos colegas.

A legenda dizia:

"Ativaram o alarme da escola!"

Vieram os emojis.

Vieram as mensagens.

Vieram as gargalhadas.

Até pessoas que mal conversavam com ela passaram a conhecer aquela risada.

Curioso...

O vídeo durava apenas sete segundos.

Mas parecia não terminar nunca.

Na semana seguinte, Bia começou a mudar.

Primeiro, passou a colocar a mão sobre a boca quando alguma coisa engraçada acontecia.

Depois, aprendeu a segurar o riso.

Mais tarde, começou a escolher onde sentar, com quem conversar, quando abrir a boca.

Não deixou de estudar.

Não desapareceu da escola.

Não passou a chorar pelos cantos.

Continuava sendo Bia.

Só que agora precisava pensar antes de fazer uma coisa que, até pouco tempo atrás, simplesmente acontecia.

Rir.

E ninguém percebeu o tamanho daquela mudança.

Ou quase ninguém.

Joana percebeu.

Joana sentava duas carteiras atrás de Bia. Não era exatamente sua melhor amiga, mas gostava dela.

Joana também havia recebido a figurinha.

Também havia reagido com um emoji de gargalhada.

Também tinha achado que não era nada demais.

Até uma sexta-feira chuvosa.

A turma estava reunida para preparar uma cápsula do tempo do 9º ano. A ideia era guardar lembranças daquela fase da vida: pequenos objetos, fotografias, bilhetes, músicas, coisas que representassem aqueles anos.

Alguém sugeriu guardar uma bola.

Outro queria colocar uma foto da turma.

Uma menina propôs uma playlist.

E Tito, sempre pronto para provocar uma gargalhada, gritou:

— Já sei! Vamos colocar a risada da Bia!

A sala explodiu em risos.

Bia ficou imóvel.

A caneta parou entre seus dedos.

Ela olhou para Tito e respondeu, sem levantar a voz:

— Não. Essa não.

Por alguns segundos, ninguém soube o que fazer com aquela resposta.

Tito sorriu.

— Qual foi, Bia? É só uma brincadeira!

Bia olhou para ele.

— Para você.

Duas palavras.

E foi como se o barulho da escola tivesse diminuído de volume.

Joana sentiu o celular vibrar sobre a carteira.

Era a figurinha da Bia.

De novo.

Abaixo dela, alguém escrevera:

"Relaxa, é só zoeira."

Joana ficou olhando para a tela.

O dedo parou sobre o teclado.

Ela poderia mandar outro emoji.

Poderia fingir que não tinha visto.

Poderia mudar de assunto.

Poderia fazer alguma coisa diferente.

Joana virou o celular com a tela para baixo.

Olhou para Tito.

Olhou para Bia.

Lembrou de todas as vezes em que havia rido da mesma piada.

E falou:

— Eu também ri.

Ninguém respondeu.

— Eu compartilhei a figurinha. Também achei engraçado.

Tito balançou a cabeça.

— E daí, Joana?

Ela respirou.

— Daí que agora não achei mais.

Não foi um discurso.

Não houve aplausos.

Nenhuma música começou a tocar.

Alguns colegas continuaram olhando para os celulares.

Outros ficaram em silêncio.

Bia não sorriu para Joana.

Não agradeceu.

Não disse que estava tudo bem.

Porque não estava.

Quando o sinal tocou, os estudantes saíram, empurrando cadeiras e recolhendo mochilas.

Tito foi embora com os amigos.

Joana ficou alguns segundos guardando o material.

Bia se aproximou da porta.

— Bia... — chamou Joana.

Ela parou.

— Desculpa.

Bia ficou olhando para a colega por alguns instantes.

— Sabe o que é estranho, Joana?

— O quê?

— Antes eu ria sem pensar.

Joana esperou que ela continuasse.

— Agora eu penso até quando estou feliz.

Bia ajeitou a mochila e saiu.

Joana permaneceu na sala vazia.

Lá fora, o recreio continuava acontecendo.

Havia gritos, conversas, passos apressados, uma bola batendo contra a parede.

A escola continuava cheia de sons.

Mas havia um que fazia falta.

E ninguém sabia quando voltaria...

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 01/11/2026
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