Mas não conte isso às crianças...
No sábado, marcaram um encontro
para falar de coisa séria.
Vieram especialistas,
educadores, psicólogos,
gente da neurociência,
saberes de todos os tamanhos.
Tudo muito bem pensado,
organizado, planejado...
Até que uma criança apareceu
e perguntou:
— Vamos brincar?
Pronto!
Começou a bagunça
que põe tanta coisa no lugar!
O chão virou caminho,
o canto virou castelo,
o espaço ganhou asas,
e até o tempo, meio sem jeito,
esqueceu de olhar o relógio.
Teve gente falando de neurônios,
de conexões e aprendizagens.
Enquanto isso,
duas crianças inventavam um mundo
com quase nada
e uma porção de coragem.
Alguém lembrou das cem linguagens.
Resolveram contar...
Uma saiu correndo,
outra se escondeu,
a terceira deu cambalhota,
a quarta nem apareceu.
A quinta fez careta,
a sexta quis dançar,
a sétima virou silêncio,
e ninguém conseguiu terminar!
Malaguzzi, se estivesse ali,
provavelmente daria risada.
Cem linguagens?
Naquela tarde,
a conta parecia ultrapassada!
Teve adulto que virou criança,
criança que virou professora,
teve pergunta sem resposta,
resposta que virou brincadeira,
e uma descoberta encantadora
atrás de cada nova besteira!
Sim, besteira!
Daquelas bem necessárias,
que fazem cócegas nas ideias,
derrubam certezas imaginárias.
Porque naquele sábado
o brincar ocupou os espaços,
escapou das palavras,
correu entre pernas e braços.
A ciência observava,
a psicologia escutava,
a educação se encantava,
e a criançada...
Ah, a criançada brincava!
E brincava de novo,
de outro jeito,
do avesso,
sem começo,
sem endereço.
Diziam:
— Brincar é coisa séria!
E era tão séria,
mas tão séria,
que ninguém conseguiu
ficar sério por muito tempo.
Num cantinho,
uma criança ainda inventava
alguma coisa sem nome.
Talvez um foguete,
uma cidade,
um bicho de outro planeta...
E lá se foi mais uma teoria,
correndo descalça,
atrás de uma borboleta!